• Esse é um repost do blog do meu sócio da Slumdog Produções e amigo dos tempos de colegial, Gustavo Goldenberg. Recomendo muito o blog dele sobre investimentos e startups em Goldenberg.vc. Siga-o no Twitter em @gustgol

     

    venture capital Como Funciona Um Fundo de Venture Capital

    A ascensão meteórica do tema empreendedorismo no Brasil e no mundo colocou novamente em evidência um velho conhecido do mercado financeiro, o capitalista de risco, ou para os mais íntimos, VCs (Venture Capitalists).

    Tenho lido muitos (e bons) textos sobre o que mostrar para um VC, o que eles procuram, como abordá-los e como fazer um pitch matador, enfim, como receber um investimento, tornar o mundo um lugar melhor e ficar com a mocinha.

    Mas, o que são VCs? Como eles funcionam? Acredito que seja importante para qualquer empreendedor entender a estrutura básica de um Venture Capital, assim como seus incentivos e motivações, afinal você deve saber com quem está lidando.

    Um fundo de Venture Capital não é um fundo de investimento pois ele investe em outras empresas, é um fundo de investimento por definição, outras pessoas/instituições colocaram seu rico dinheirinho lá com o objetivo de terem algum retorno sobre este capital.

    Fundos de Venture Capital pertencem a uma categoria ampla de investimento chamada Investimentos Alternativos, em resumo, tudo que não é um título de dívida ou uma posição simples em ações é um Investimento Alternativo. Dentro de uma classificação taxonômica este seria nosso Filo, sendo o Reino o dos Investimentos. (Lembre-se: Reino>Filo>Classe>Ordem>Família>Genus>Espécie – Ouvi dizer que hoje existem Domínios, que são grupos de reinos. Agora, além de não saber escrever, devido a reforma ortográfica, estou emburrecendo em outros os campos científicos também).

    Descendo em nossa classificação temos a Classe, bastante auto explicativa, dos Investimentos em Participações.  Aqui já podemos entrar em alguns detalhes, esses investimentos podem ser feitos através de fundos (Ex: Sequoia, Pátria, Performa) ou através de equipes in-house de grandes empresas. No segundo caso, só podemos chamar de investimento em participação se o objetivo da empresa é investir seu caixa afim de obter resultados financeiros através da apreciação do valor das investidas, se for uma compra estratégica, com objetivos de sinergia e outras coisas facilmente planilháveis e dificilmente mensuráveis , temos um caso clássico de Fusões e Aquisições (M&A).

    Vamos focar nos fundos de Investimentos em Participações. As informações mais relevantes sobre o título deste post estão ainda no nível de Classe, porém é válido lembrar que dentro dessa Classe temos duas Ordens, Private Equity e Venture Capital.

    Investimentos de Private Equity compram participações (em até 100%!) de empresas maduras, que geram fluxo de caixa estável e tem pouco risco de mercado. Os fundos concentram bastante seus portfólios, as vezes não passando de 4 empresas. As fontes de retorno são normalmente engenharia financeira e reestruturação corporativa, e ganham liquidez em um IPO ou venda estratégica.

    Estes investimentos não costumam ser mais baixos do que alguns milhões mas podem ser bilionários. O maior deal de PE da história teve o valor de meros U$ 55 Bi (U$ 31 Bi em 1989, data do deal) e foi a compra da NJR Nabisco pelo KKR. Houve tanto drama nesse deal que foram inspirados um livro e, consequentemente, um filme sobre esse acontecimento, Barbarians at the Gate.

    No caso de Venture Capital estamos nos referindo a atividade de financiar empresas com alto risco e potencial de crescimento onde há um grande grau de incerteza sobre os fluxos de caixa futuros. O retorno no investimento dos fundos costuma vir de desenvolvimento de produto e comercial (crescimento rápido no mercado). Os fundos costumam ter portfólios diversificados, dado que de cada 10 empresas investidas somente uma costuma dar retornos significativos, o restante acaba falindo ou dá retornos consideravelmente baixos.

    No entanto Private Equity e Venture Capital são bastante semelhantes na maneira em que operam. Ambos tem em sua estrutura mais comum dois grandes personagens, os General Partners e os Limited Partners.

    Os General Partners são os gestores do fundo, são eles que escolhem em quem e quando investir, fazem todo o processo de sourcing e Due Dilligence e são eles que desenvolvem as teses de investimento.

    Os Limited Partners são os investidores do fundo. Eles são “Limited“ (Limitados) pois suas responsabilidades com relação às empresa de portfolio são limitadas, ou seja, eles estão expostos somente ao capital investido. Os LPs dos fundos de VC e PE são investidores com um nível razoável de sofisticação, afinal precisam comprometer um valor considerável que não será visto por no mínimo sete anos.

    Os próprios General Partners costumam filtrar quem são os investidores de seus fundos, pois não querem gastar tempo e dinheiro com investidores pouco sofisticados. Logo temos como principais investidores desses veículos Fundos de Pensão (Ex: PREVI) e Endowments (Fundos de Patrimônio, Ex: Yale) pois eles tem um horizonte de retorno bastante longo e podem arcar com a baixíssima liquidez desse tipo de investimento. Mas é comum encontrar bancos e até High Networth Individuals (Ricos!) também se envolvendo neste meio. Finalmente existem os Fundos de Fundos, sim, um fundo que investe em outros fundos, mas este não é o foco aqui.

    É comum os próprios General Partners investirem parte de seus patrimônios pessoais nos fundos, isso se chama Hurt Money e serve para alinhar ainda mais os interesses dos LPs e GPs. Este valores são baixos comparados ao total dos fundos, mas do ponto de vista dos General Partners isso dói no bolso!

    Os fundos costumam durar de 5 a 7 anos (extendendo-se em até 10 no mercado de cleantech). Durante este período os General Partners, os gestores do fundo, tem 5 grandes tarefas.

    primeira fase é levantar capital: normalmente demora de 6 meses a um ano para fundos mais novos e poucos meses para rockstars como KPCB ou BVP. Neste período os Limited Partners,  investidores, comprometem investir uma certa quantidade de capital, não há transferência de recursos.

    segunda fase é a de sourcing: aqui é onde entram os empreendedores. Com capital comprometido para o fundo, os General Partners vão atrás de oportunidades de investimento que condizem com as expectativas dos Limited Partners e com a descrição do fundo. Esta fase dura entre os primeiros 3 a 5 anos de um fundo.

    terceira fase começa com o primeiro investimento. Aqui é feito um capital call, ou seja os General Partners recolhem parte do capital comprometido pelos Limited Partners para iniciar seus investimentos.

    quarta fase é o monitoramento das empresas de portfolio, também se inicia com o primeira investimento. Aqui cada fundo agrega valor à sua maneira, pedem uma cadeira no Board of Directors, indicam posições de liderança nas empresas, conectam com mentores e experts. Depende muito do fundo e de sua estratégia.

    quinta e última fase é o desinvestimento. Neste momento é que os investidores tem o retorno em seu capital. IPOs, vendas estratégicas e fusões. Existe a busca por um evento de liquidez para que se possa extrair o valor criado nas empresas investidas, afinal os fundos, em sua maioria, tem uma data limite para sua existência.

    Os General Partners ganham dinheiro através de duas principais vias, taxas de administração dos fundos e com o Carry. As práticas comuns de mercado são 2/20 ou seja 2% de taxa de administração e 20% de Carry.

    A taxa de administração é cobrada sobre o total de capital comprometido (aquele da fase 1) ou seja um fundo de R$ 100 MM ganha R$ 2 MM ao ano para despesas administrativas. Não é aqui que os fundos costumam ganhar dinheiro, obviamente para fundos bilionários estes valores se tornam significativos mas esta taxa é quase uma taxa de sobrevivência para os sócios e demais funcionários de fundos médios e pequenos.

    Finalmente chegamos ao Carry, a Motherload dos fundos de participação, é aqui que fica a grana. Quando os fundos vão chegando ao seu fim e começam a desinvestir (fase 5) espera-se que ele tenha dado retorno positivos (AKA: Lucro) e os GPs ficam com 20% deste lucro, este é o Carry.

    Porém os retornos precisam ser mais do que positivos, precisam exceder uma taxa chamada Hurdle Rate (Taxa Barreira). Afinal os LPs assumiram riscos razoáveis ao comprometer milhões por sete anos ou mais, investindo em empresas sujeitas a falência e uma série de outros riscos. Seria injusto aceitar uma taxa de retorno semelhante a poupança não é mesmo? Portanto o Carry só é cobrado em cima do que exceder a Hurdle Rate, que normalmente é definida pelo CDI do período (aproximadamente a Taxa Livre de Risco, SELIC) mais um pequeno spread, alguns pontos percentuais.

    Mesmo assim, se nosso fundo de R$ 100 MM retornasse R$ 400 MM ao final do ano 7, com um Hurdle Rate de 10% a.a, os GPs teriam ganho R$ 14 MM em taxas de administração e R$ 38 MM no Carry, nada mal para um escritório com uma dezena de pessoas. Mas lembrem-se que esse foi o fruto de 7 anos de trabalho, sem correções temos uma receita de R$ 7.4 MM ao ano.

    Enfim, o funcionamento de um fundo está explicito nas linhas acima, espero que esse texto tenha ajudado a dar um passo a mais dentro das mentes dos investidores institucionais. Afinal , eles também precisam pagar suas contas e tenha certeza que GPs de um fundo com resultado ruim dificilmente levantam capital para um segundo fundo.

    Portanto entendam as pressões as quais os VCs estão sujeitos e vejam porque não é tão fácil investir em uma empresa que envolve incertezas. Fica aberto o convite para dúvidas e comentários.

     

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